Quem fará o jornalismo? Trabalho, poder e valor em um campo em disputa

2026-11-03
Quem fará o jornalismo? Trabalho, poder e valor em um campo em disputa

Chamada para dossiê da revista LÍBERO | 80 anos do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

O futuro do jornalismo está em disputa  e o que se disputa vai além da sobrevivência de empresas, da renovação de formatos ou da incorporação de tecnologias. Estão em jogo as condições de produção do conhecimento sobre a vida pública, a autoridade para reconhecer e narrar acontecimentos e a possibilidade de sustentar um trabalho socialmente necessário. Quem poderá exercê-lo, sob quais condições, a serviço de quais interesses e com que responsabilidade perante a sociedade?

Em celebração aos 80 anos do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, a revista LÍBERO convida pesquisadoras e pesquisadores a examinar criticamente as transformações do campo e a investigar possibilidades para sua reconstrução. A efeméride propõe um exercício de interrogação: o que merece ser preservado, o que precisa ser abandonado e o que ainda deve ser inventado para que o jornalismo tenha futuro?

A inteligência artificial generativa recoloca questões sobre autoria, apuração, verificação e responsabilidade editorial. A centralidade das plataformas na circulação da informação tensiona a autonomia das organizações jornalísticas e sua relação com os públicos. A busca por sustentabilidade econômica exige discutir quem financia a notícia, quem se apropria do valor produzido e quais formas de dependência acompanham cada modelo de receita. Nessas disputas, inovação e precarização podem integrar um mesmo processo: a expansão de atividades e competências pode abrir espaços de atuação e, simultaneamente, transferir riscos aos profissionais, intensificar jornadas e enfraquecer vínculos de trabalho.

Essas transformações também exigem rever as fronteiras da profissão e os fundamentos de sua formação. O debate sobre a obrigatoriedade do diploma ganha outras camadas quando sistemas automatizados passam a executar tarefas associadas ao trabalho jornalístico. Que conhecimentos, competências e compromissos justificam uma formação específica? Qual a relação entre credencial acadêmica, reconhecimento profissional e qualidade da informação? Como formar para atividades emergentes sem reduzir a universidade à adaptação imediata às demandas do mercado?

O dossiê acolherá contribuições teóricas, pesquisas empíricas e análises de experiências que articulem diagnóstico crítico e elaboração de alternativas, com atenção às condições concretas de sua realização. Interessa compreender como escolhas empresariais, decisões regulatórias, práticas profissionais, iniciativas coletivas e projetos educacionais produzem futuros distintos — e distribuem de maneira desigual seus benefícios e custos.

São bem-vindas contribuições que abordem, entre outros, os seguintes eixos:

  • Sustentabilidade econômica e valor público: modelos de negócio e financiamento; assinaturas, publicidade, fundos públicos, filantropia e cooperativismo; concentração da propriedade; independência editorial; jornalismo local e desigualdades no acesso à informação.

  • Produção da notícia e inteligência artificial: transformações da apuração, da edição e da verificação; automação e supervisão humana; autoria, direitos e responsabilidade; vieses, opacidade e critérios de qualidade do conhecimento jornalístico.

  • Diploma, formação e legitimidade profissional: obrigatoriedade do diploma e regulação do exercício profissional; saberes específicos do jornalismo; relações entre universidade e mercado; currículos, pesquisa e formação ética em contextos de automação.

  • Plataformas, circulação e poder: distribuição algorítmica; mecanismos de busca e interfaces de IA; remuneração e apropriação de conteúdos jornalísticos; métricas, visibilidade e dependência tecnológica; relações com públicos e comunidades.

  • Trabalho, precarização e novas carreiras: vínculos e condições de trabalho; intensificação, remuneração e saúde; desigualdades de raça, gênero, classe e território; empreendedorismo, organização coletiva e trajetórias profissionais emergentes.

  • Fronteiras do jornalismo e experiências de futuro: criadores de conteúdo e iniciativas independentes; jornalismo de dados, de investigação e de comunidade; aproximações e tensões com comunicação institucional, entretenimento e marketing; novos arranjos editoriais e formas de participação pública.

Ao celebrar oito décadas de formação em Jornalismo, a LÍBERO propõe discutir o futuro do campo como uma questão de interesse público. Quem fará o jornalismo é também uma pergunta sobre quem terá condições de investigar o poder, produzir conhecimento verificável e tornar experiências sociais visíveis. As respostas dependem das instituições que conseguirmos construir, das relações de trabalho que aceitarmos sustentar e dos compromissos que formos capazes de renovar.