Dossiê “Gênero, mídia e política”

A pesquisa em Comunicação, na sua interface com os estudos de gênero, tem contribuído para a compreensão das ações políticas dos feminismos contra as várias formas de desigualdade social. A estrutura que mantém a subordinação das mulheres é também sedimentada em uma base de classe e raça, e é na impossibilidade de desarticulação destas opressões que reside a construção da perspectiva interseccional de gênero (SAFFIOTI, 2015). Segundo Biroli e Miguel (2008, 2015), este quadro é perpassado pelas representações dessas questões nos produtos midiáticos, cuja lógica interfere na condução do debate público.

No que se refere ao campo da Comunicação e Política, o debate foi encorajado a partir do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, no qual se verificou a presença de preconceito de gênero contra a presidenta – desde a controvérsia construída em torno do uso do substantivo em sua flexão de gênero. Uma importante coletânea reuniu textos em torno dos vários aspectos envolvidos nesse problema, incluindo um de autoria da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada no ano da publicação. Linda Rubim e Fernanda Argolo (2018) argumentam que as questões de gênero foram minimizadas pela mídia ao longo da campanha do impeachment, o que caracteriza uma tentativa de silenciamento.

A garantia da representação política das mulheres se constitui como um problema não só de ocupação de vagas nos poderes legislativo e executivo, mas de reconhecimento, tal como discute Nancy Fraser (2007), que coloca a redistribuição material ao lado do reconhecimento da condição igualitária da mulher na sociedade como prerrogativas para a distribuição do poder pela representação política. Isso depende das percepções que envolvem o problema, produzidas mormente pelos processos midiáticos de circulação de sentidos.

Além disso, a ofensiva conservadora contra a agenda da igualdade de gênero e da diversidade sexual coloca para a pesquisa na área o problema da crise da democracia. Essas ações atingem não somente as mulheres, mas também a população LGBTQIA+, compondo uma agenda midiática que, associada com a ascensão de tendências fascistas, se mostra problemática para as conquistas sociais e políticas duramente alcançadas no processo democrático.

Dessa forma, este dossiê acolhe pesquisas na interface gênero, mídia e política, que se mostra como uma importante frente de crítica sobre o papel da comunicação na produção desses debates.

 

Prazo para submissão: 31/05/2021

Data de publicação: v.2 2021 (maio/ago.)

 

Editoras convidadas:

Profa. Dra. Kelly Prudêncio

Profa. Dra. Carla Rizzotto 

Universidade Federal do Paraná (UFPR)