Dossiê: “Jornalismo e conhecimento em tempos de capitalismo pandêmico e de expansão da desinformação”

A comemoração dos 70 anos do teórico brasileiro Adelmo Genro Filho, precocemente falecido em 1988, abre a oportunidade para um balanço crítico sobre o jornalismo. Em “O Segredo da Pirâmide”, Genro Filho estabelece uma tese ousada: o jornalismo não é somente uma modalidade de informação, nem pode ser confundido com o meio em que é produzido. Não é um epifenômeno do capitalismo ou somente aparelho ideológico de classe burguesa. Ele defende o jornalismo como uma forma social de conhecimento, assim como a arte e a ciência – mas com um estatuto próprio que o diferencia delas. Essa afirmação altera não somente as conceituações sobre a produção, circulação e recepção do jornalismo, como redimensiona o papel dos profissionais que desempenham essa atividade. Por conseguinte, lança a tarefa teórica que o autor não desenvolve em suas minúcias: como o jornalismo se diferencia do conhecimento produzido na vida cotidiana e em que aspectos guarda características similares à arte e à ciência?

As bases filosóficas em que Genro Filho busca sua definição de conhecimento nos permitem questionar se o jornalismo atende aos requisitos de diferenciação do cotidiano para ser uma forma de conhecimento. É uma obra que propõe uma crítica refinada sobre o jornalismo e os estudos em jornalismo, escapando de dogmatismos e aportando em uma teoria inventiva para a compreensão da prática jornalística no universo do conhecimento (PONTES, 2015). Em tempos de crise do estatuto de autoridade jornalística e da própria deontologia profissional, uma das principais contribuições que faz da teoria de Genro Filho atual é a complexidade da relação entre subjetividade e objetividade.

Pensar o legado de Genro Filho também remete a uma reflexão sobre o momento histórico, marcado pelo capitalismo pandêmico e pela expansão da desinformação. Coloca-se a compreensão de que a processualidade contemporânea do território digital amplia o irracionalismo e a desintegração da credibilidade em torno de formas institucionais tidas, até então, como relativamente estáveis (BELLAN, 2016), como a ciência, a justiça, o ensino formal, o estado democrático de direito e, por óbvio, o jornalismo. Parte do mesmo complexo, a plataformização do trabalho e das relações sociais atravessa a produção jornalística, modificando-a. Já o negacionismo da crise sanitária decorrente da pandemia da Covid-19 produz desafios para a ciência e para o jornalismo, enquanto a pilhagem de vidas humanas se acumula.

O dossiê busca artigos que possam oferecer pistas para reflexão sobre as tarefas do jornalismo nessa encruzilhada histórica. Como responder às necessidades que a conjuntura exige da profissão? São valorizadas reflexões teóricas que considerem dimensões epistemológicas do exercício do jornalismo alinhadas aos desafios sociais do nosso tempo, bem como experiências e análises de produções capazes de provocar considerações sobre os caminhos e descaminhos para a prática jornalística. São bem-vindas reflexões sobre as contribuições de Genro Filho, que atualizam, criticam e dinamizam seus conceitos. Da mesma forma, reflexões sobre autores que teorizam o jornalismo ou que potencializam reflexões sobre ele. Particular relevo será dado a argumentações conceituais e históricas que apontem para transformações necessárias para um jornalismo de novo tipo, engajado com a práxis humana emancipatória e que busque, na revelação das contradições do cotidiano, apontar para uma sociedade mais igual, fraterna e verdadeiramente livre.

Nesse sentido, o dossiê volta-se às seguintes temáticas de interesse:

 

  • O jornalismo como forma de conhecimento na entrada do século XXI;
  • As contradições entre a prática jornalística, o senso comum e vida cotidiana;
  • A complexidade da relação entre subjetividade e objetividade no jornalismo;
  • A crise de autoridade do jornalismo e a desintegração da credibilidade de instituições sociais como a ciência e a justiça;
  • O universo do conhecimento no contexto da plataformização do trabalho jornalístico e das relações sociais;
  • Desinformação e negacionismo: desafios para o jornalismo e para ciência.
  • O potencial do jornalismo como práxis emancipatória;

 

 

Prazo para submissão: 15 de setembro de 2021

Publicação: dezembro de 2021 (ano 24, n. 49)

 

Editores convidados:

Prof. Dr. Felipe Simão Pontes (UEPG)

Prof. Dr. Marcos Paulo da Silva (UFMS)

Prof. Dr. Rafael Bellan Rodrigues de Souza (UFES)

 

Referências

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2012.

PONTES, Felipe Simão. Adelmo Genro Filho e a teoria do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2015.

BELLAN, Rafael. Por uma práxis noticiosa realista: da estética de Lukács ao jornalismo crítico-emancipatório de Genro Filho. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 13, n. 2, p. 88-97, ago./dez. 2016.