Dossiê “Comunicação em contextos de guerras, conflitos e crises”

Em A sociedade incivil: mídia, iliberalismo e finanças, Muniz Sodré (2021) relembra Paulo Freire, quando este ressalta que a comunicação é, a um tempo, separação e ponte. Deslocamos o pensamento de Freire para o contexto temático deste dossiê em que se pretende um olhar para os processos comunicativos em contextos de guerras, conflitos e crises, passando a visualizar a potência da comunicação tanto para unir os povos em torno de uma causa quanto, e principalmente, para o desentendimento político, pensado aqui na mesma perspectiva de Jacques Rancière (2018).

Nas grandes guerras do século XX, a comunicação de massa exerceu expressiva influência sobre as sociedades envolvidas nos conflitos bélicos. A manipulação do jornalismo, que passou a seguir, em diversas frentes, as orientações dos gabinetes de guerra (Hastings, 2014), terminou por influenciar o apoio que cada povo concedeu a seus governantes. Durante a Segunda Guerra Mundial, as manifestações culturais de grande alcance das massas, tais como a música e o cinema, foram usadas como armas de sensibilização e de manipulação social aos interesses de cada governo. A exaltação do nacionalismo e do sentimento de superioridade, assim como o crescimento da xenofobia e da discriminação entre os povos, tornou-se consequência pretendida pelas estratégias utilizadas pelos lados do conflito.

Devemos considerar que crises e conflitos que terminam por desembocar em guerras – protagonistas de grandes catástrofes – irrompem estruturas temporais e podem modificar o tecido temporal histórico, quebrando os laços entre passado e futuro, entre experiência e expectativa. Como lembra Reinhart Koselleck (2009), crises podem levar povos à liberdade ou à escravidão, tendo em vista que nascem a partir da dissolução dos vínculos do passado com possibilidade de criar vínculos completamente díspares no futuro.

Para Kosellcek (2009), crítica e crise conformam uma espiral em que as estruturas temporais se aproximam e se afastam. A crítica tem poder para transformar os presentes históricos a partir das crises que deflagra. É o “presente potência”, o tempo que, em espiral comunicativa, une e separa. É, portanto, nesse presente que o instante aristoteliano se manifesta como aporia temporal, pois, “graças ao instante, o tempo é contínuo e também dividido [...], o instante tem uma dupla função: ao mesmo tempo distingue e une o continuum temporal” (Rêgo; Barbosa, 2020, p. 101).

Os desafios da comunicação em tempos de grandes conflitos políticos e guerras em quase todo o planeta, como o atual, se projetam com grandes proporções, tendo em vista que, hoje, a comunicação – antes condição central na vida da maioria das sociedades – se tornou ubíqua. A vida nas plataformas digitais nos induz a uma condição de bios virtual (Sodré, 2002), que, do ponto de vista da fenomenologia, se manifesta como um novo modo de existir (Heidegger, 2015).

O monopólio da fala (Sodré, 2001) é transformado em processo reticular de produção e consumo de conteúdos informativos, a partir dos modelos de negócios das big techs, em um capitalismo de vigilância (Zuboff, 2021) que trabalha as sociedades tendo estratégias psicológicas como guias. Tais estratégias são usadas como táticas de ação para atrair usuários e prender sua atenção de modo contumaz e intermitente nas redes sociais digitais, privilegiando conteúdos desinformativos, cujo potencial para viralizar é maior que o de informações jornalísticas (Castro, 2018).

Nas crises, nas guerras e nos conflitos do presente, assim como no passado, a comunicação – como porta-voz da informação, mas também como lugar em que se estabelecem as afetividades e se efetivam as possibilidades para o diálogo e os entendimentos possíveis – se apresenta como um lócus permeado de desafios, como a desinformação que hoje se encontra potencializada. É diante dos desafios comunicativos, em suas diversas dimensões, que propomos aos pesquisadores submeterem contribuições capazes de iluminar os fenômenos que nos envolvem no presente-passado e no presente-presente, com vistas a olhar as expectativas que podem surgir.

 

Editores convidados:

Profa. Dra. Marialva Barbosa (UFRJ)

Profa. Dra. Ana Regina Rêgo (UFPI)

Prof. Dr. Jorge Pedro Sousa (UFP)

 

Normas para submissão:

https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/about/submissions#authorGuidelines

 

Referências:

CASTRO, Fábio de. ‘Fake news’ têm 70% mais chance de viralizar do que notícias verdadeiras, segundo novo estudo. O Estado de S.Paulo, 8 mar. 2018. Disponível em: <https://acortar.link/RRMo8p>. Acesso em: 4 jun. 2022.

HASTINGS, Max. Catástrofe 1914: a Europa vai à guerra. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2015.

KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 2018.

RÊGO, Ana Regina; BARBOSA, Marialva. Tempo, memória e história da comunicação: um passeio teórico em torno de Paul Ricoeur. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, São Paulo, v. 18, n. 32, p. 96-106, 2020.

SODRÉ, Muniz. A sociedade incivil: mídia, iliberalismo e finanças. Petrópolis: Vozes, 2021.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.

SODRÉ, Muniz. O monopólio da fala: função e linguagem da televisão no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2001.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira de poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.